Esteatose hepática é o acúmulo de gordura nas células do fígado. Durante muitos anos, o termo mais usado foi “gordura no fígado” ou DHGNA, equivalente a NAFLD em inglês. Hoje, a nomenclatura preferida internacionalmente é MASLD, sigla para doença hepática esteatótica associada à disfunção metabólica. Em português, ela descreve melhor a relação entre fígado, excesso de peso, resistência à insulina, diabetes, colesterol, pressão alta e outros fatores cardiometabólicos.
A mudança de nome não é apenas detalhe técnico. Ela ajuda a lembrar que a gordura no fígado raramente deve ser vista de forma isolada. O fígado pode ser uma janela para a saúde metabólica como um todo. Por isso, o acompanhamento costuma envolver avaliação do risco de fibrose hepática, controle de fatores cardiometabólicos e mudanças sustentáveis de estilo de vida.
Por que merece atenção
Muitas pessoas descobrem a esteatose por acaso, em uma ultrassonografia ou em exames de sangue de rotina. A maioria não sente dor e pode ter enzimas do fígado normais. Mesmo assim, alguns pacientes desenvolvem inflamação, chamada esteatohepatite, e uma parcela pode evoluir para fibrose, cirrose e complicações hepáticas ao longo do tempo.
O objetivo da consulta não é assustar, mas separar quem tem baixo risco de quem precisa de acompanhamento mais próximo. A presença de diabetes tipo 2, obesidade, aumento da circunferência abdominal, hipertensão, triglicerídeos elevados e alterações persistentes das enzimas hepáticas aumenta a necessidade de avaliação cuidadosa.
Quem deve ser avaliado para MASLD?
Diretrizes e posicionamentos brasileiros de áreas como hepatologia, endocrinologia, obesidade e gastroenterologia têm reforçado a importância de procurar MASLD em pessoas com sobrepeso, obesidade ou risco cardiometabólico. Isso não significa rastrear toda a população da mesma forma, mas priorizar quem tem maior probabilidade de ter gordura no fígado e fibrose relevante.
- Pessoas com sobrepeso ou obesidade, principalmente com acúmulo de gordura abdominal.
- Pacientes com diabetes tipo 2, pré-diabetes ou resistência à insulina.
- Quem tem triglicerídeos altos, HDL baixo, hipertensão ou síndrome metabólica.
- Pessoas com enzimas hepáticas alteradas de forma persistente.
- Pacientes com ultrassonografia mostrando esteatose, mesmo sem sintomas.
O consumo de álcool precisa ser conversado com honestidade, porque ele muda o diagnóstico diferencial e pode somar dano ao fígado. A avaliação também considera hepatites virais, medicamentos, doenças autoimunes, alterações genéticas e outras causas de doença hepática quando o quadro sugere.
Como é feito o diagnóstico?
A ultrassonografia abdominal costuma ser um primeiro exame de imagem acessível e muito usado para identificar esteatose moderada ou importante. Ela não mede com precisão a inflamação e pode não detectar graus leves, mas ajuda como ponto de partida. Exames de sangue avaliam enzimas hepáticas, glicemia, hemoglobina glicada, colesterol, triglicerídeos, plaquetas e outras informações clínicas.
Quando há suspeita ou confirmação de MASLD, a pergunta mais importante passa a ser: existe risco de fibrose avançada? Para isso, podem ser usados escores simples, como o FIB-4, que combina idade, enzimas hepáticas e plaquetas para estimar risco. Ele não fecha diagnóstico sozinho, mas ajuda a decidir quem pode ser acompanhado na atenção clínica habitual e quem precisa de avaliação adicional.
Em casos selecionados, a elastografia hepática ajuda a estimar rigidez do fígado, que pode se relacionar com fibrose. Ressonância e biópsia hepática ficam reservadas para situações específicas, quando há dúvida diagnóstica, suspeita de doença mais avançada ou necessidade de esclarecer inflamação e fibrose.
O que ajuda no tratamento
A base do tratamento da MASLD é o estilo de vida, com metas realistas e sustentáveis. Em pessoas com excesso de peso, uma perda de 5% a 10% do peso corporal pode melhorar gordura no fígado, enzimas hepáticas e risco metabólico; perdas maiores podem trazer benefícios adicionais para inflamação e fibrose em alguns pacientes. O foco deve ser constância, não medidas extremas.
- Perda gradual de peso quando há sobrepeso ou obesidade, com acompanhamento adequado.
- Alimentação rica em comida de verdade, fibras, proteínas adequadas e gorduras de boa qualidade.
- Redução de bebidas açucaradas, ultraprocessados, excesso de álcool e beliscos frequentes.
- Atividade física aeróbica e exercícios de força, adaptados à condição de cada pessoa.
- Controle de diabetes, colesterol, triglicerídeos, pressão arterial e apneia do sono.
Não existe uma dieta única obrigatória. Padrões alimentares como a dieta mediterrânea podem ser úteis, mas o plano precisa caber na rotina, cultura alimentar, orçamento e condições clínicas do paciente. Medicamentos para diabetes, obesidade ou colesterol podem ser indicados por seus benefícios metabólicos quando há critérios, mas não substituem a base de estilo de vida e devem ser individualizados.
E o álcool?
A MASLD pressupõe que a disfunção metabólica seja parte central do quadro, mas o consumo de álcool precisa ser considerado no diagnóstico diferencial. Mesmo quantidades moderadas podem ser relevantes dependendo do padrão de uso, sexo, peso, presença de fibrose, medicamentos e outras doenças. Em pessoas com risco hepático aumentado, a recomendação costuma ser reduzir bastante ou evitar álcool, conforme avaliação médica.
Exames de acompanhamento
O acompanhamento pode incluir exames de sangue, ultrassonografia, cálculo periódico de escores como FIB-4 e, quando necessário, elastografia. A frequência depende do risco individual. Pessoas com baixo risco podem ser acompanhadas com intervalos maiores; quem tem diabetes, fibrose suspeita ou alterações persistentes pode precisar de seguimento mais próximo.
É importante não se tranquilizar apenas porque as enzimas do fígado estão normais, nem se desesperar por uma alteração leve isolada. O conjunto de informações é mais útil do que um exame solto. A avaliação clínica ajuda a decidir se há necessidade de investigar outras causas, intensificar mudanças de estilo de vida ou encaminhar para hepatologia.
Quando procurar ajuda?
Procure avaliação se você recebeu laudo de esteatose, tem diabetes, obesidade, triglicerídeos altos, enzimas hepáticas alteradas ou histórico familiar de doença hepática. Também vale conversar se você deseja entender seu risco antes de iniciar um plano de perda de peso ou mudanças alimentares importantes.
A Dra. Fernanda Soares, gastroenterologista em Botafogo, pode ajudar a interpretar seus exames, estratificar risco de fibrose e construir um plano de cuidado possível para a sua rotina. MASLD costuma ser silenciosa, mas a boa notícia é que medidas consistentes podem melhorar a saúde do fígado e do metabolismo ao longo do tempo.